A História do SAFERJ - O Começo de Tudo

O atleta profissional de futebol do Rio de Janeiro começou a buscar seus direitos a partir de craques dos anos 70, como Afonsinho, Paulo César Caju, Zico e Dirceu, que questionavam por direitos juntos aos dirigentes dos clubes cariocas. A época era de transição no País e de abertura política, depois do período militar, instalado em 1964.

História do SAFERJ

Craques como Zico, Júnior, Leandro e Adílio no Flamengo; Rivelino, Carlos Alberto Pintinho, Paulo César, Doval, Edinho e Rodrigues Neto no Fluminense; Mazzaropi, Marco Antônio, Zé Mário, Dirceu, Roberto Dinamite, no Vasco da Gama e Gil, Mendonça, Osmar e Dé, no Botafogo faziam os estádios lotarem, levando suas torcidas ao delírio.

Neste contexto, surgem as primeiras idéias de organização do jogador de futebol no Rio, já que estas estrelas mostravam que eram eficientes também fora das quatro linhas, ao discutirem salários, prêmios, luvas e demais direitos, junto às direções dos clubes.

No princípio foram atitudes isoladas, pois a insatisfação de alguns jogadores com o desrespeito freqüente aos seus direitos era notória. Neste início, o jogador que se transformou em símbolo destas reivindicações foi o cabeça de área Zé Mário, inicialmente ídolo da torcida do Fluminense, depois do Vasco.

O Surgimento da APAF

No fim de 1975, dirigentes do Fluminense costumavam convidar um atleta de seu elenco para uma conversa, nas noites de segundas-feiras, sobre seus problemas particulares. Uma das pessoas que acompanhou este início foi o advogado Alexander Macedo, na época vice-presidente do Departamento Jurídico do clube, que juntamente com Hugo Mosca e Antônio Carlos da Gama, também dirigentes tricolores, escutavam as reivindicações e esclareciam as dúvidas dos atletas, acompanhados de suas esposas. Depois os dirigentes tentavam contemplar parte dos problemas descritos naquelas conversas.

APAF

Numa dessas noites o jogador escolhido foi Zé Mário, que logo questionou a possibilidade de fazer encontros desta natureza com jogadores de outros clubes. Alexander explicou ao atleta que isto só seria possível com a criação de um sindicato. As palavras do dirigente serviram como motivação para o jogador, que passou a trabalhar para tornar o sindicato dos atletas uma realidade do futebol do Rio de Janeiro.

"Zé Mário foi um batalhador dos seus direitos e sempre soube lutar por eles, respeitando e se fazendo respeitar. Depois daquela segunda-feira, ele passou conversar com seus colegas sobre a possibilidade de se criar uma entidade para lutar pelos direitos dos atletas. Ele teve de peitar cartolas e brigar muito. Foram vários encontros até que foi criada a APAF" – conta Alexander. Ele refere-se à Associação Profissional dos Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, fundada no dia 29 de novembro de 1977 e que junto com a AGAP – Associação de Garantia do Atleta de Futebol, foram os embriões que possibilitaram a criação do Sindicato.

Enfim o Sindicato: Zé Mário, o Primeiro Presidente

Como foi o principal guerreiro na luta pela criação de um sindicato, Zé Mário acabou se tornando o primeiro presidente da APAF. Muitas foram as dificuldades para a criação definitiva do Sindicato. Só em 1979 o Ministério do Trabalho reconheceu a transformação da APAF em Sindicato.

Em 1980, Zé Mário foi eleito seu primeiro presidente. Incentivado por Gilbert, ponta-direita do América, que era ligado à AGAP, Zé Mário começou a exigir do Vasco o recolhimento do fundo de garantia e o pagamento do 13° salário dos atletas do Rio.

Zé Mário seguiu em frente e com a ajuda de Zico, Rivelino, Roberto Dinamite, Dirceu, dentre muitos outros, conseguiu fortalecer a classe a fim de que ela fosse devidamente respeitada - o que até então não acontecia, em absoluto.

O início não foi fácil. É justo enaltecer o trabalho de Luís Edmundo Augusto Pitta, que cuidava da parte administrava do sindicato, e de Gilberto Pereira, da Associação de Garantia ao Atleta Profissional (AGAP).

Zé Mário
Sindicato dos Atletas de Futebol do RJ

Para superar os muitos problemas financeiros que a entidade enfrentou em seu início, Zé Mário, juntamente com Dirceu, teve de colocar do próprio bolso para pagar as primeiras contas do sindicato.

Foi preciso ser criativo e surgiu a idéia de organizar um amistoso entre as seleções do Rio de Janeiro e de São Paulo, para, com a renda, comprar a sede do Sindicato, na Av. 13 de maio, onde funciona até hoje. Daí em diante, o sindicato começou a ganhar força e a contar com a ajuda da legislação.

Ficou definido que toda vez que o Conselho Nacional de Desporto (CND) se reunisse seria obrigatória a presença de advogados do sindicato.

Além disso, a Justiça Desportiva tinha de contar com auditores indicados pelos atletas, tanto nas federações como na CBF. O prestígio do sindicato era tanto, que os seus primeiro auditores foram Francisco Horta, Antônio Prieto Lopes e Antônio Carlos da Gama Barandi.

A possível resistência de alguns dirigentes foi contornada pelo então presidente do Fluminense, Francisco Horta, que se prontificou a convencer Márcio Braga, que presidia o Flamengo, e Agarthino Gomes, que presidia o Vasco, de que o surgimento de um sindicato só serviria para fortalecer o futebol.

Este trabalho de Francisco Horta foi importante, pois em certa ocasião o lateral-esquerdo Júnior chegou a liderar os jogadores do Flamengo e, na Justiça, obrigou o clube a recolher o fundo de garantia, o que não era feito. Ao invés de se indignar com os jogadores, Márcio Braga se indignou com o clube que não cumpria suas obrigações.

Francisco Horta

A força era tanta que até Emerson Leão, atleta do Vasco e na época goleiro da Seleção Brasileira, preferia recorrer ao departamento jurídico do sindicato ao invés de contratar advogados particulares.

Os jogadores passaram a ter mais consciência dos seus direitos e o clímax desse período, sem dúvida nenhuma, aconteceu quando o meia Afonsinho, depois de várias batalhas jurídicas contra o Botafogo, conquistou passe livre. Depois disso o jogador foi boicotado pelos clubes de maior investimento e acabou indo jogar no Olaria, mas até hoje é citado como exemplo de um atleta consciente dos seus direitos.

Foto Histórica - SAFERJ

Mas se as dificuldades existiam, também havia uma marcante presença dos jogadores, que acreditavam no projeto de um sindicato forte. Na primeira reunião do sindicato estiveram presentes 98 jogadores e todos se filiaram à entidade.

Mais tarde, com a ajuda de Agarthino e Francisco Horta, foi realizado na sede do Vasco, na Lagoa, um simpósio para discutir as leis trabalhistas.

Nas reuniões era comum a presença de jogadores de grande nome, como Zico, Abel Braga, Dirceu, entre outros. A situação chegou a tal ponto que os jogadores dos clubes de menor investimento ficavam com vergonha de ir às reuniões, pois tinham que dividir o mesmo espaço com grandes craques do futebol do Brasil.

"Foi difícil convencer os jogadores de pequenos clubes a comparecer às reuniões, pois eram justamente eles que mais precisavam do sindicato. Eles tinham vergonha de conviver com os grandes ídolos da época" – contou Zé Mário.

Apesar da crença na entidade e no projeto, ninguém queria assumir a presidência do Sindicato. Quando terminou o primeiro mandato de Zé Mário, ele procurou um substituto e não encontrou. O único que apareceu com um discurso de oposição acabou desistindo quando Zé Mário mostrou que não oferecia resistência para entregar o cargo, já que estava sobrecarregado.

A última luta que teve à frente do sindicato foi pelo próprio passe. Depois de Afonsinho, Zé Mário foi o primeiro a conquistar este direito.

Depois que venceu na Justiça, o Vasco chegou a propor um acordo ao jogador, mas como já tinha vencido a guerra judicial, Zé Mário não aceitou acordo nenhum e se transferiu para a Portuguesa de Desportos. Longe do Rio de Janeiro, Zé Mário acabou se afastando também do sindicato.

Marco Maciel

Atualmente como técnico de futebol, Zé Mário vê com tristeza o afastamento dos grandes jogadores do sindicato. "Os grandes jogadores pensam que por ganhar bem não vão precisar do sindicato, mas estão enganados, pois de uma hora para outra poderão precisar. Vemos clubes atrasando em cinco meses os salários dos jogadores e eles não percebem a importância dos sindicatos. Na minha época tivemos grandes conquistas, como a vistoria nos estádios de futebol, que se tornou obrigatória", afirmou Zé Mário.

Zico

Zico Assume

Com a saída do pioneiro Zé Mario, assumiu o Vice-Presidente. Nada menos que Zico, Artur Antunes Coimbra, um dos maiores jogadores do futebol brasileiro, que não fugiu da condição e assumiu a entidade em substituição a Zé Mário.

Convencido de que poderia ser útil, com o seu prestígio e sua força, Zico, que sempre participou intensamente de todas as atividades do Sindicato desde o início, contribui com sua dedicação e firmeza para unir mais ainda a classe e fortalecer a entidade.

Nem mesmo os intensos treinos na Gávea, a família, os muitos afazeres, foram fortes motivos para impedir que Zico assumisse o comando do Sindicato. No período em que esteve à frente da entidade, procurou incentivar os companheiros a brigar por seus direitos.

Uma de suas principais lutas foi para que o Sindicato dos jogadores tivesse sua própria sede. As tentativas e as idéias foram muitas e o sonho acabaria por se realizar durante a administração do goleiro Paulo Sérgio, que o sucedeu.

Paulo Sérgio e a Sede Própria

O desejo de fazer algo pela própria profissão e a vontade de não assistir quieto à toda a luta de Zé Mário e Zico se perde, fez com que Paulo Sérgio, do Botafogo, assumisse a presidência do Sindicato, em 1983.

O goleiro considerou este período de sua vida muito importante, pois aprendeu a realidade dos sindicatos no país. Para ele, o grande destaque de sua gestão aconteceu quando a revista Placar denunciou a máfia das loterias esportivas no país.

Paulo Sérgio disse que desde sua época a luta era contra os atrasos nos salários e pelo recolhimento do Fundo de Garantia e do INSS.

Mas a grande conquista de sua gestão foi a compra da sede, que começou a ser desenhada desde a época de Zé Mário. Mágoas, apenas com a falta de apoio dos grandes jogadores, que na época já estavam afastados do sindicato.

Paulo Sérgio

"Por causa da falta desse apoio não conseguimos formar uma Federação Nacional. Os grandes jogadores, com algumas exceções, só pensam nos sindicatos quando os problemas aparecem. A geração que temos aí se beneficiou com conquistas do sindicato, como direito de arena, respaldo jurídico e o reconhecimento da profissão de atleta" - afirmou Paulo Sérgio, numa entrevista em 2001.

Os Craques Vão e o Sindicato Esvazia

Quando assumiu o Sindicato em 1986, Carlos Roberto da Cunha, zagueiro do Vasco, o Gaúcho, que foi um batalhador para a criação da entidade desde o início, trabalhando lado a lado, primeiro com Zé Mário, depois com Zico e posteriormente com Paulo Sérgio, enfrentou o problema da evasão de jogadores brasileiros para o exterior e, conseqüentemente, do esvaziamento do Sindicato.

"Penso que assumi o Sindicato em seu pior momento, pois o jogador brasileiro havia descoberto que deixar o país era um bom negócio e muitos se foram. Com isso o Sindicato entrou num período de declínio. As reuniões ficavam esvaziadas e a categoria perdeu força" - recorda Gaúcho.

Carlos Roberto da Cunha

Apesar deste esvaziamento, Gaúcho se lembra que o Sindicato sempre esteve ao lado dos jogadores e durante sua gestão muitos foram beneficiados com a intervenção do Departamento Jurídico.

Ele conta que uma de suas maiores vitórias à frente da entidade foi quando conseguiu vencer uma queda de braço com a CBF, que não respeitava as férias dos jogadores e sempre invadia o período de descanso dos atletas.

"A luta foi árdua porque a história sempre se repetia e os jogadores não tinham este direito respeitado. Em 1988, resolvemos encarar essa situação. Fomos para a Justiça e vencemos fazendo com que a CBF, a partir daquele ano, tivesse que respeitar o período de descanso dos jogadores" - conta Gaúcho, que ficou à frente do Sindicato até setembro de 1989.

O Surgimento de uma Nova Liderança

Convidado por Gaúcho, que não encontrava interessados na categoria para assumir a presidência da entidade, e pelo então advogado do sindicato, Dr. Edmundo Pitta, Alfredo Sampaio da Silva Júnior, um atleta pouco conhecido da mídia, concorreu à presidência e foi eleito.

Era a primeira oportunidade em que um atleta sem muito nome, que atuara em times de pequeno investimento, teria a responsabilidade de comandar o Sindicato.

Os primeiros meses foram de muito aprendizado, sempre bem assessorado pelo Dr. Edmundo Pitta, que além de advogado, desempenhava as funções de Secretário Executivo da entidade.

Mas, passados os primeiros meses de empossado, Alfredo tomava pé da situação e constatou que teria grandes dificuldades, muito em função do esvaziamento causado pelo êxodo de jogadores mais famosos para o futebol europeu e pela total falta de recursos que possibilitassem o crescimento do Saferj.

Alfredo Sampaio

Como toda a diretoria era composta por atletas sem muita exposição na mídia, as dificuldades pareciam ainda maiores. As portas não se abriam e ficou clara para seu presidente, a necessidade de estabelecer uma nova estratégia que resgatasse o valor e a importância do Sindicato, dando-lhe credibilidade junto à imprensa, público e jogadores do Rio.

"Todo o esforço feito ao longo dos anos anteriores para a criação do Saferj não poderia ter sido em vão", conta Alfredo Sampaio.

Traçados os objetivos, a presidência partiu para a prática da estratégia. O primeiro passo foi na direção de implantar o dissídio coletivo da categoria. A idéia era estabelecimento de um piso salarial escalonado para a 1ª, 2ª e 3ª divisões do futebol carioca.

Lamentavelmente, o projeto não sensibilizou o Ministério do Trabalho na época. Uma grande pena, porque teria sido um dos passos mais importantes em busca de um mínimo de respeito pelo atleta.

Em seguida, foi criada a Seleção de Masters do Rio, que realizava inúmeros jogos, divulgando assim o trabalho da entidade por onde passasse. Craques como Jairzinho, Marco Antônio, Rodrigues Neto, entre outros, faziam parte daquela seleção.

A festa "Craques de Ouro", realizada nos finais de ano para homenagear os melhores atletas do Rio durante a temporada, também foi um sucesso do SAFERJ. Todas essas ações levaram novamente a entidade às páginas dos jornais e trouxeram os atletas de volta ao sindicato.

Lei Zico

Em 1990, o sindicato participou efetivamente da criação uma nova lei do passe no Brasil. Surgia a Lei Zico. Alfredo Sampaio compareceu a reuniões com o Ministro e no Congresso Nacional, para influir e colocar a posição do atleta de futebol na lei.

Programas de TV, rádios e a imprensa escrita buscavam novamente a palavra do Sindicato dos Atletas do Rio, que agora já desfrutava de muita credibilidade. A determinação e posição firmes culminaram, mais tarde, com o fim da lei do passe, o que deu liberdade definitiva ao atleta de futebol no Brasil.

Também foi em 1990 que, por iniciativa do SAFERJ, os Sindicatos de Atletas de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Pernambuco se reuniram para criar uma federação nacional de Atletas. Este era o desejo dos antigos presidentes da entidade e que era levado agora a frente pelo presidente Alfredo Sampaio. Na primeira tentativa não deu certo. Mas foi o pontapé inicial para a criação da FENAPAF, mais tarde, no início de 2001.

Um assunto sempre preocupou o presidente, desde o primeiro mandato: a recuperação clínica dos atletas de equipes de poucos recursos, quando vitimados por lesões.

O sonho de construir um centro de recuperação fisioterápica já vinha sendo nutrido pelo Dr. Arnaldo Santiago, médico do Fluminense, que, com o auxílio de atletas de peso e prestígio como Zico, buscava formas de capitanear uma campanha de levantamento de fundos para erguê-lo.

Centro de Recuperação Fisioterápica

Alfredo Sampaio, que também é professor formado em Educação Física e Técnico de Futebol, por achar que este é um dos papéis do Sindicato, criou o Projeto Casa do Atleta e desde então vem destinando recursos para a realização do sonho do Centro de Fisioterapia.